Flecha em chamas corta arco-íris no céu americano


 

     O que sabemos das culturas indígenas? O que nos foi contado pelos filmes de faroeste talvez seja a melhor resposta. E das culturas africanas o que sabemos? O que nos ensinou o professor Tarzan, com certeza.

    Mas os povos indígenas, com o incansável lema dos americanos de que para resolver o grande problema deles é preciso que eles deixem de serem indígenas — “Apaga-los do mapa ou apagar-lhes a alma” — continuam sofrendo, vítimas do preconceito e do racismo; com isso, uma terça parte de suas selvas foram aniquiladas e milhares deles mortos por ordem e progresso. E se a maioria acha que toda a sua cultura se resume ao que os filmes de faroeste nos mostram e ao que o professor Tarzan nos ensinou, mesmo sem nunca ter pisado na África, provavelmente ainda tem muito a aprender.

    Apenas para elucidar como os indígenas são renegados, uma pesquisa realizada por Eduardo Galeano, publicada na Revista Nossa América, define alguns pensamentos e ideias acerca do que eles representam no contexto socioeconômico e cultural na visão dos homens brancos intelectuais do universo americano.

    Os fragmentos apresentados de acordo com o Ministério da Saúde podem fazer mal para os seus olhos durante a leitura, mas para a história universal, que continua indiferente e negando a identidade indígena, tirando-lhes o direito de ser, proibindo-lhes o direito de viver a seus modos, maneiras e costumes, revela-nos uma América cega, ou uma América que finge não querer enxergar.

 _____“Cristóvão Colombo escreveu em seu diário que ele queria levar alguns indígenas à Espanha para aprenderem a falar, pois os povos Mixtecas foram considerados retardados mentais porque não falavam corretamente a língua castelhana”.

 _____“O Paraguai fala Guarani – caso único na história universal – e, no entanto, a maioria dos paraguaios opina, que os que não entendem espanhol são como animais”.

 _____ “De cada dois peruanos, um é indígena, e a Constituição do Peru diz que o Quéchua é um idioma tão oficial como o espanhol, porém a realidade não escuta. O Peru trata os indígenas como a África do Sul trato os negros”.

 _____Os funcionários do Registro Civil de Buenos Aires negaram-se a registrar o nascimento de um menino. Os pais, indígenas da província de Jujuy, queriam que seu filho chamasse Quori Wamancha, um nome de sua língua. Não foi aceito por tratar-se de nome estrangeiro”.

 _____ “Henry Pratt, coronel norte-americano, aconselhava: Matar indígenas para salvar os homens”.

_____ “Mário Vargas Llosa, escritor,  explica: Não há outro remédio a não ser modernizar os povos indígenas, mesmo que seja preciso sacrificar suas culturas para salvá-los da fome e miséria”.

 _____ “Gabriel René, historiador, acreditava que os indígenas eram asnos, que geram mulos quando cruzados com raça branca”.

 _____ “Ricardo Palma, peruano, escreveu que os indígenas são uma raça abjeta e degenerada”.

 _____ “Domingo Faustino, argentino: São mais indômitos, animais mais teimosos, menos aptos para a civilização e assimilação europeia”.

 _____ “Maurício Rangel Reis, que foi ministro do interior do Brasil, no Governo Geisel: O problema ficará completamente solucionado no final do séc. XX; todos os indígenas estarão devidamente integrados na sociedade brasileira, e não serão mais considerados povos de aldeias. A Funai irá se encarregar de civilizá-los, ou seja, de desaparecê-los”.

    Esta pequena retrospectiva desde a colonização das Américas até os dias atuais é prova de que não houve grande transformação nesta relação branco e índio. Cada qual procura defender suas ideias, conceitos, mitos e crenças que melhor se adaptem às suas necessidades e interesses. Não se pode rotular a cultura indígena como decadente, uma vez que a cultura branca também caminha num processo de decadência.


 (Texto baseado na pesquisa de Eduardo Galeano in: Revista Nossa América, Edição março/abril 1992).

 

 

P.S.  De acordo com a pesquisa realizada por IA:“A concepção dos americanos em relação aos povos indígenas passou por uma transformação radical, evoluindo de uma visão colonial de extermínio e assimilação forçada para uma de reconhecimento legal, soberania limitada e preservação cultural, embora desafios contemporâneos e estereótipos persistam. O “Dia dos Povos Indígenas”, que somam cerca de 1,7 milhão de pessoas, segundo o Censo 2022 (um aumento de 88,8% desde 2010), celebrado em 19 de abril no Brasil, honra a rica diversidade cultural dos povos originários e promove a reflexão sobre seus direitos, lutas e história, mas eles continuam. enfrentando ao mesmo tempo graves desafios territoriais”.